Pela Fé Entendemos...Um diálogo entre a filosofia pré-socrática e a compreensão da criação em Hebreus 11:3.
- Teologos Revelando
- há 22 horas
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O presente texto propõe uma reflexão filosófica e teológica, sem a pretensão de esgotar o tema ou estabelecer conclusões definitivas. As referências bibliográficas aqui utilizadas têm caráter complementar, servindo como apoio conceitual à problemática apresentada, e não como instrumento de imposição argumentativa.
A questão central que orienta esta reflexão é a seguinte: os métodos de investigação do conhecimento empregados pela filosofia natural pré-socrática (séculos VI–V a.C.), especialmente aqueles vinculados à phýsis (φύσις) e à percepção sensível (αἴσθησις), apresentam alguma similaridade conceitual com o entendimento da fé expresso em Hebreus 11:3, particularmente a partir do verbo νοέω (compreender, perceber intelectualmente)? Ou tratam-se de métodos essencialmente distintos?

Nota de Esclarecimento
Antes de avançarmos, é necessário esclarecer alguns pontos que, à primeira vista, podem causar confusão ao leitor. O uso do termo “empirismo” neste texto não é feito de maneira anacrônica. Em nenhum momento nos referimos ao empirismo moderno desenvolvido por Francis Bacon a partir do século XVII.
Metodo Empírico intuitivo (Physis)
O termo é empregado aqui para designar o modo de investigação empírico-intuitivo presente na filosofia pré-socrática, no qual a observação da natureza (phýsis) e a experiência sensível desempenham papel central na busca pelo princípio originário (archḗ) da realidade.
Do mesmo modo, não se pretende estabelecer qualquer tipo de secretismo conceitual ou leitura esotérica dos textos analisados. Trata-se, antes, de uma proposta reflexiva que busca colocar em diálogo diferentes formas de compreensão da realidade, respeitando seus contextos históricos e epistemológicos.
Quando analisamos o substantivo αἴσθησις nos dicionários de língua grega, como o Wikcionário – O dicionário livre, encontramos as seguintes acepções: percepção dos sentidos, sensação, audição, visão; aquilo que é percebido, como o cheiro. Semanticamente, o termo remete de forma direta ao campo da percepção sensível, isto é, ao contato imediato do ser humano com o mundo por meio dos sentidos.
A partir dessa análise semântica, é possível concluir que os pré-socráticos operavam com um método empírico-intuitivo, fundamentado nos cinco sentidos e na observação reiterada dos fenômenos naturais e dos eventos que se manifestavam na realidade visível. Não se trata de um empirismo sistematizado nos moldes modernos, mas de uma investigação baseada na experiência sensível aliada à racionalização.
Giovanni Reale afirma que “o princípio é aquilo do qual as coisas vêm, aquilo pelo que são e aquilo no qual terminam. Tal princípio foi denominado com propriedade por esses primeiros filósofos (senão pelo próprio Tales) de phýsis, palavra que não significa natureza no sentido moderno do termo, mas realidade primária, originária e fundamental” (REALE, 2012, p. 48). O autor destaca, assim, o objeto central da observação dos filósofos jônicos: o arché (ἀρχή), o princípio de todas as coisas.
É importante recordar que o arché, para os pré-socráticos, era concebido a partir de uma realidade material, acessível aos sentidos, ou seja, do visível (βλέπω). Em Tales de Mileto, o arché originário de tudo era identificado com a água. Conforme expõe Giovanni Reale, Tales — considerado o iniciador da filosofia da natureza — defendia que a água era o princípio originário de todas as coisas e sustentava ainda que a terra flutuava sobre ela.
Essa convicção teria sido extraída da observação empírica de que a umidade é um elemento fundamental da vida: o alimento de todos os seres é úmido; o calor tanto se origina quanto se mantém no úmido; e as sementes de todas as coisas possuem natureza úmida. Assim, partindo da constatação de que tudo se gera a partir de um princípio, e identificando a água como a origem da natureza úmida, Tales concluiu que a água era o elemento primordial da phýsis.
Dessa forma, para os pré-socráticos, a noção de princípio estava diretamente ligada a uma realidade material e sensível, em contraste com uma concepção de realidade metafísica, distinta daquela apresentada pelo autor da Epístola aos Hebreus, especialmente em Hebreus 11:3.
O Diaglo constante entre fé e Razão.

Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram organizados poruma palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem a sua origem em coisas manifestas.Bíblia Jerusalém Hebreus 11:3.
O autor da Epístola aos Hebreus emprega um verbo fundamental para a correta compreensão do texto de Hebreus 11:3: o verbo νοέω, utilizado na terceira pessoa do singular e no modo indicativo. Esse verbo expressa uma ação cognitiva efetiva e contínua, indicando não apenas um ato pontual do passado, mas um entendimento que permanece em curso. Segundo a Bíblia Nepe, νοέω significa: perceber com a mente, entender, ter entendimento.
Aqui reside uma diferença essencial em relação ao pensamento pré-socrático. O autor de Hebreus não afirma que apenas ele tenha experimentado essa apreensão racional e transcendente da realidade por meio da fé; ao contrário, o uso verbal indica uma experiência compartilhada, coletiva, acessível a todos aqueles que participam da fé. Trata-se, portanto, de uma forma de experiência comum, ainda que não fundada no empirismo sensível clássico, mas em uma fé racionalmente compreendida.
O escritor de Hebreus prossegue em sua argumentação invertendo a ordem dos princípios, em contraste com o método pré-socrático. Enquanto os filósofos jônicos partem do visível para alcançar o princípio material (arché), o autor bíblico afirma que o mundo visível (βλέπω — ver, discernir por meio do órgão da visão) é formado a partir do invisível. Segundo a Bíblia Nepe, βλέπω refere-se à capacidade de perceber o mundo material por meio da visão sensível; contudo, em Hebreus 11:3, essa percepção é subordinada a uma realidade que não se manifesta diretamente aos sentidos.
O texto afirma, assim, que aquilo que é visível procede do que não se vê, isto é, de uma realidade invisível e transcendente, associada ao agir criador de Deus. Nesse contexto, o invisível pode ser compreendido em relação ao verbo φαίνω, não como simples aparência sensível, mas como manifestação que tem origem em uma dimensão metafísica.
Dessa forma, o verbo νοέω, empregado no modo indicativo, assume um peso semântico decisivo, pois estabelece uma relação constante entre fé e razão. A fé não se apresenta como oposição à racionalidade, mas como meio pelo qual o entendimento apreende uma realidade que ultrapassa a experiência sensível. É por isso que o autor de Hebreus utiliza o indicativo: para afirmar a fé como um ato real de compreensão, contínuo e partilhável, e não como mera abstração subjetiva.
Assim, “o que é visível surgiu do invisível” (NEB). Mas como sabemos isso? Pela fé, diz o nosso autor. A especulação grega sobre a formação do mundo ordenado a partir da matéria sem forma havia influenciado os pensadores judaicos como Filon e o autor do livro de Sabedoria; o autor de Hebreus é mais bíblico na sua argumentação e reforça a doutrina da creatio ex nihilo, uma doutrina incompatível com o pensamento grego. A fé pela qual ele aceita isso é a fé na revelação divina; o primeiro capítulo de Gênesis provavelmente é o que está mais presente na sua mente, visto que ele logo a seguir vai investigar sete exemplos de fé vívidos com base nos capítulos subsequentes desse livro.(Comentario Exegético de Hebreus F.F bruce pag .342)
A investigação dos filósofos pré-socráticos se dava pelo empirismo natural. αἴσθησις, por sua vez, oferece dados de uma investigação imediata e mutável. νοοῦμεν é um verbo que denota uma ação contínua das faculdades cognitivas, que transcende o empirismo imediato: é um exercício constante da razão humana. Observa-se também que o verbo está empregado na primeira pessoa do plural, indicando que há um consenso que reafirma o resultado empírico: não se trata de uma experiência isolada, mas de uma experiência coletiva.
Importante: o verbo νοοῦμεν está no Presente do Indicativo, que em grego carrega a força de uma ação durativa: uma atividade que se iniciou no passado, permanece em curso no presente e ainda não está concluída. Isso significa que a compreensão da origem divina do cosmos não é um “insight” pontual, mas um processo contínuo e vivo da comunidade. A fé (πίστει) não fornece um entendimento final; ela é o meio que ativa e sustenta o exercício constante da razão (νοῦς) na busca pela verdade inteligível.
QUADRO COMPARATIVO: AS DUAS FACULDADES COGNITIVAS
ASPECTO | αἴσθησις (aísthēsis) | νοοῦμεν (nooûmen) |
CONCEITO | Percepção sensorial imediata (visão, audição, tato, etc.) | Ato contínuo de compreensão intelectual (inteligir com a mente) |
NATUREZA | Dados brutos, mutáveis, particulares | Princípios universais, estáveis, inteligíveis |
TEMPO | Presente momentâneo (captura instantânea) | Presente contínuo (ação durativa) – processo iniciado, em curso e não concluído |
NÚMERO | Pode ser experiência individual e subjetiva | Primeira pessoa do plural ("nós compreendemos") |
PAPEL NA INVESTIGAÇÃO PRÉ-SOCRÁTICA | Ponto de partida empírico: observação da φύσις (natureza) – água, ar, fogo e suas transformações | Transcendência racional: a mente (νοῦς) busca a ἀρχή (princípio/origem) por trás dos fenômenos |
PROCESSO EPISTEMOLÓGICO | Fornece a matéria-prima da investigação | Realiza o processamento superior que extrai significado e causa |
RESULTADO | Experiência isolada, impressionística (δόξα – opinião) | Consenso inteligível, conhecimento partilhável (ἐπιστήμη – ciência) |
APLICAÇÃO EM HEBREUS 11:3 | Reconhece o dado empírico: a existência do cosmos visível | Πίστει νοοῦμεν: “Pela fé nós compreendemos” que o visível veio do invisível pela Palavra de Deus |
SÍNTESE DA DESCOBERTA | Base necessária, mas insuficiente | Atividade comunitária e contínua da razão, habilitada pela fé (πίστει) para transcender o empírico e alcançar a verdade última |
Conclusão.
A análise comparativa entre o empirismo sensível dos pré-socráticos e a compreensão da criação apresentada em Hebreus 11:3 evidencia duas formas complementares de investigação da realidade. Enquanto αἴσθησις revela os dados imediatos e mutáveis da natureza, permitindo a observação do mundo visível e material, νοοῦμεν representa a ação contínua da razão, sustentada pela fé (πίστει), que transcende o empirismo imediato e alcança o conhecimento do princípio invisível.
Nos filósofos jônicos, o arché é buscado a partir do que é visível, da matéria sensível, enquanto o autor bíblico inverte essa lógica: o visível procede do invisível, e a compreensão desta realidade não é fruto de um insight isolado, mas de um processo comunitário e duradouro, em que a fé e a razão atuam conjuntamente. Assim, Hebreus 11:3 apresenta uma epistemologia única, em que a fé não é antagônica à razão, mas a habilita a conhecer a realidade última, estabelecendo uma ponte entre experiência, entendimento e revelação divina.
Em síntese, o estudo da percepção sensorial e da compreensão racional coletiva nos permite perceber que a investigação humana da realidade — seja na filosofia natural ou na reflexão teológica — combina elementos de experiência, análise e consenso, cada um no seu plano, mas ambos voltados para a busca da verdade inteligível.
Referências Bibliográficas
REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga – Volume I: Dos Pré-Socráticos a Aristóteles. 1. ed. São Paulo: Loyola, 2012.
BÍBLIA. Hebreus 11:3. Bíblia NEPE – Nova Edição Pastoral Expandida. São Paulo: Paulinas, 2020. Disponível em: https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=58&chapter=11&verse=3#strongG4487. Acesso em: 10 jan. 2026.
BÍBLIA. Gênesis 1. Bíblia NEPE – Nova Edição Pastoral Expandida. São Paulo: Paulinas, 2020.
BRUCE, F. F. Comentário Exegético de Hebreus. 1. ed. São Paulo: [Editora], 2023. p. 342.
ChatGPT. Representação artística dos filósofos pré-socráticos Tales de Mileto, Anaximandro e Anaxímenes contemplando a natureza. Imagem gerada por inteligência artificial. 2026. Disponível em: /mnt/data/A_classical-style_ancient_Greek-style_fresco_paint.png
ChatGPT. Representação artística do autor da Epístola aos Hebreus escrevendo e contemplando a criação. Imagem gerada por inteligência artificial. 2026. Disponível em: /mnt/data/A_classical-style_oil_painting_depicts_the_Apostle.png.

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