"Renascimento: marco da valorização do homem e fim do teocentrismo?"
- Teologos Revelando
- 16 de jan.
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Resumo: O artigo problematiza a narrativa histórica que consagra o Renascimento como o marco inaugural do antropocentrismo e o fim do teocentrismo medieval. Argumenta-se que essa visão é, em grande parte, uma construção ideológica dos próprios humanistas e dos iluministas, que criaram a noção de uma "Idade das Trevas" para se autolegitimarem. Por meio de uma análise das antropologias filosófico-teológicas medievais, demonstra-se que a valorização do ser humano — ainda que fundada em pressupostos diferentes — era central no pensamento anterior, questionando-se assim a ideia de um "nascimento" súbito e a noção de um hiato cultural entre a Antiguidade e a Modernidade.
1. Introdução: A Narrativa Canônica e seu Problema
Abre-se com a afirmação contida no título: o Renascimento dos séculos XV e XVI é celebrado na historiografia tradicional como o grande divisor de águas, o momento em que o homem se colocou no centro do universo (antropocentrismo), suplantando a visão de mundo que colocava Deus no centro (teocentrismo). Este período é visto como o "despertar" após um longo inverno medieval. Os próprios renascentistas, ao retomarem os textos clássicos, foram os primeiros a periodizar a história nesses termos, criando o conceito pejorativo de "Idade Média" como um hiato de obscurantismo. Posteriormente, os iluministas do século XVIII, como Voltaire, reforçaram essa dicotomia entre "trevas" e "luz". No entanto, tal narrativa é mais um ato de autoafirmação cultural do que um retrato fiel da complexidade histórica. Como bem observa Edmilson Cruz, os escritos iluministas tinham um caráter de "propaganda", cujo objetivo era desvincular-se a qualquer custo dos valores medievais. Este artigo, portanto, propõe-se a refletir: antes do Renascimento, havia uma valorização integral do homem? Ou o antropocentrismo renascentista foi realmente uma invenção ex nihilo?
A Antropologia Holística da Escolástica – O Caso da Suma Teológica
Quando estudamos o período da modernidade e o Renascimento, é natural ouvir de

Fonte: Gravura de André Thevet (1584).
muitos historiadores que foi ali, entre os séculos XV e XVI, que "o ser humano foi mais valorizado". Pois bem: não discordo totalmente dessa afirmação, mas devemos pontuar e esclarecer alguns fatos antes de aceitá-la sem reservas. A pergunta fundamental que devemos fazer antes de responder é: antes do Renascimento, havia uma valorização do homem?
Se a resposta for simplesmente "não", cairemos na armadilha criada pelos próprios humanistas renascentistas — que, ao se autoproclamarem herdeiros diretos da cultura clássica, inventaram a noção de uma "Idade Média" como um hiato de obscurantismo, um desvio entre a luz antiga e a nova alvorada que viviam. Se a resposta for "sim", então precisamos entender de que tipo de valorização se tratava, e em que bases ela se sustentava. Foi essa valorização medieval menos "humana"? Menos "integral"? Ou apenas fundamentada em pressupostos radicalmente diferentes daqueles que celebrariam, mais tarde, a autonomia, a razão e a ação no mundo como medidas do homem?
É essa investigação que propomos desenvolver ao longo deste artigo. Partiremos da constatação de Jacques Le Goff sobre uma "longa Idade Média" — que se estende até o século XVIII — para questionar a ideia de uma ruptura brusca e absoluta. Em seguida, analisaremos as antropologias filosófico-teológicas medievais, mostrando como, dentro de um paradigma teocêntrico, o ser humano era visto como ápice da Criação, portador de uma dignidade única. Por fim, buscaremos compreender o que, de fato, mudou com o Renascimento: não o "nascimento" do valor humano, mas a transformação do alicerce sobre o qual esse valor era construído — de uma dignidade recebida de Deus para uma grandeza conquistada pelo próprio engenho humano.Se a ideia de uma racionalidade voltada para a valorização do homem fosse uma exclusividade do Renascimento dos séculos XV e XVI, como explicar os extraordinários florescimentos intelectuais que ocorreram muito antes, no próprio coração da chamada "Idade Média"? A narrativa do hiato cultural começa a ruir quando olhamos para os períodos do Renascimento Carolíngio (século IX) e, sobretudo, do Renascimento do Século XII.
Como nos lembra Frame em sua História da Filosofia e da Teologia Ocidental:
a contribuição mais interessante de Anselmo é sua descrição da relação entre fé e razão. Como nós vimos, isso tem sido um grande problema para o pensamento cristão, desde os pais da igreja. Os filósofos cristãos olharam com frequência para a filosofia grega como fonte de parâmetros para a racionalidade, ao mesmo tempo em que estiveram comprometidos com a regra de fé cristã. Para muitos, como Justino e Clemente, a fé e a razão filosófica grega funcionam bem juntas, reforçando uma a outra suas posições. Eventualmente, contudo, como vemos em Tertuliano, surge um protesto contra essa relação. E em uma ocasião, pelo menos, na controvérsia trinitária, a igreja se envolveu em uma grande batalha para libertar suas doutrinas das distorções que se deviam à filosofia grega.(FRAME pag.215).
frame continua dizendo que:
A grande obra inacabada de Tomás, a Suma teológica, começa com uma discussão sobre “A natureza e o domínio da sagrada doutrina”. O Primeiro Artigo lida com a questão: “Se é necessário, para além das disciplinas filosóficas, qualquer outra doutrina”. Tomás identifica as “disciplinas filosóficas” com aquelas “investigadas pela razão humana”. Ele responde que sim, também precisamos de uma doutrina oferecida pela revelação divina.
Em primeiro lugar, o homem é direcionado a Deus “como um fim que suplanta a força de sua razão”. Muito embora Deus exceda a razão, precisamos conhecê-lo. Por isso, o conhecimento deriva da revelação. Ademais, existem algumas verdades sobre Deus que a razão pode investigar (esses são os objetos da filosofia), mas conhecê-los por meio do raciocínio exige empenho, maturidade e inteligência. Nem todos são capazes de obter esse conhecimento, por isso Deus oferece parte dele — sua parcela mais crucial — por meio da revelação.(FRAME Pag.234-235.)
Resumindo, Tomás define filosofia como a disciplina na qual a razão humana é suficiente. A sagrada doutrina é a disciplina na qual recebemos a verdade pela revelação e pela fé. Estaríamos inclinados, portanto, a identificar a sagrada doutrina com a teologia.(FRAME Pag.234-235).
Estas três afirmações do autor apontam para um movimento intelectual ativo muito anterior ao século XV. A chamada "Idade Média" não era um deserto de pensamento, mas

A imagem mostra Tomás de Aquino, teólogo e filósofo medieval, trajando o hábito dominicano (túnica branca com capa escura), com expressão séria e contemplativa, simbolizando sua dedicação ao estudo, à razão e à teologia cristã.
A imagem mostra São Tomás de Aquino, identificado como um santo e Doutor da Igreja Católica, geralmente representado com sua tradicional veste dominicana (manto branco com capa preta), transmitindo dignidade e seriedade refletindo sua tradição como teólogo e filósofo medieval.
um campo em que a fé e a razão dialogavam, e onde a compreensão do homem era objetivo central. Esse esforço de conciliação e de busca por uma visão integral do humano atinge seu ápice no século XIII, de modo sistemático, na obra de Tomás de Aquino.
A própria estrutura da Suma Teológica é a prova documental da "preocupação antropológica" a que Frame se refere. Tomás dedica centenas de questões a dissecar a natureza humana com uma profundidade que rivaliza com qualquer tratado renascentista ou moderno. Como vemos:
Na Primeira Parte (Prima Pars – Questões 75–102), ele constrói um tratado sobre a natureza do ser humano: analisa a alma humana (sua espiritualidade e imortalidade), suas faculdades (intelecto, vontade, sensibilidade), o livre-arbítrio e a origem do homem. Sua definição do homem como unidade substancial de corpo e alma – onde a alma é a forma do corpo – valoriza a pessoa em sua integralidade, rejeitando o desprezo platônico pela matéria.
Na Primeira Parte da Segunda Parte (Prima Secundae – Questões 1–48), desenvolve uma antropologia moral: investiga o fim último do homem (a felicidade em Deus), os atos humanos, as paixões e as virtudes. Aqui, o ser humano é entendido como um projeto ético, naturalmente orientado para o bem e para a plenitude.
Na questão 93 da Prima Pars, Tomás elabora a doutrina da Imago Dei: a imagem de Deus no homem reside precisamente em sua alma intelectual, dotada de entendimento e livre-arbítrio, capaz de autoconhecimento e de amar. O pecado original obscurece, mas não apaga essa imagem.
Portanto, a ideia de que havia um "desprezo do homem" na Idade Média devido ao pecado é um mito. Na verdade, a teologia escolástica, culminando em Tomás de Aquino, empenhou-se na mais detalhada e otimista antropologia, que via o homem como a criatura mais nobre da ordem natural, cujas faculdades racionais e espirituais o capacitavam não só a conhecer o mundo, mas a buscar e alcançar seu Criador.Contudo, a valorização medieval do homem não se limitava ao plano filosófico ou antropológico. Ela encontra sua expressão mais radical e definitiva no cerne da própria fé cristã: a soteriologia. A doutrina central do Cristianismo proclama que o próprio Deus, na Pessoa de Jesus Cristo, assumiu a natureza humana para, através de sua morte e ressurreição, redimir a humanidade. Existe, de fato, expressão maior de valorização do que o Criador morrer no lugar da criatura?
É precisamente sobre essa visão soteriológica que a Igreja construiu sua antropologia. O teocentrismo medieval, longe de anular o valor humano, era o seu fundamento e a sua garantia suprema. A dignidade do homem era tão incontestável que exigia um resgate de valor infinito. Esse equilíbrio teocêntrico integrava as dimensões da condição humana de forma coerente:
A Queda (Pecado Original) reconhece a Grandeza Perdida: A doutrina do pecado original só faz sentido partindo-se de uma concepção elevadíssima da natureza humana. A "queda" pressupõe uma altura original. A corrupção pressupõe uma integridade primordial. O lamento patrístico e medieval pela condição decaída é, em si, um testemunho da nobreza que se acreditava ter sido outrora possuída.
A Encarnação sacramentaliza a Natureza Humana: Ao tornar-se homem, Deus não apenas "visitou" a humanidade; Ele uniu-se a ela para sempre. A natureza humana foi assumida pela Pessoa do Verbo e, assim, elevada a uma dignidade inaudita. Como proclamava Santo Atanásio: "Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus" (em sentido de participação na vida divina, theosis). Isso não é desprezo; é a mais sublime promoção concebível.
A Redenção é o Preço da Dignidade: A morte de Cristo na cruz era entendida como um resgate (redemptio). A lógica teológica subjacente é clara: aquilo que é resgatado com um preço infinito possui um valor infinito. A antropologia medieval, portanto, via o ser humano como digno do sacrifício divino. Seu valor objetivo era atestado pelo próprio ato redentor de Deus.
Portanto, a pergunta "havia valorização do homem antes do Renascimento?" encontra sua resposta mais profunda não apenas nos tratados filosóficos, mas no altar. A visão soterológica da Igreja constituía um sistema integrado no qual o teocentrismo não se opunha ao antropocentrismo, mas era a sua condição de possibilidade mais elevada. O homem era grande porque criado à imagem de Deus; era digno de reparação porque essa imagem, embora desfigurada, permanecia; e era alvo de um amor tão desmedido que a própria lógica do universo foi interrompida para salvá-lo.
O humanismo renascentista, ao secularizar essa dignidade, transferiu sua fundamentação de Deus para o próprio homem. Foi uma mudança de referência, não uma invenção do valor. O Renascimento começou a celebrar o que a Idade Média já considerava sagrado: a pessoa humana. A diferença crucial é que, para a visão medieval, esse valor era um reflexo; para a visão humanista moderna, ele se tornaria uma fonte.
Conclusão: O Mito do Renascimento e a Longa Sombra do Humano
Ao percorrermos os caminhos do pensamento medieval — desde o florescimento intelectual dos séculos IX-XII até a sistematização tomista e a radical proposição soteriológica —, fica evidente que a valorização do ser humano não foi uma invenção do Renascimento. O que ocorreu nos séculos XV e XVI foi, na verdade, uma transformação da linguagem, dos referenciais e do projeto dessa valorização. O homem deixou de ser compreendido primordialmente como imago Dei dentro de uma ordem cósmica teocêntrica para ser celebrado como artífice de seu próprio destino no palco da história secular.
Como bem observa o historiador Peter Burke, a narrativa que os próprios renascentistas forjaram sobre si mesmos e sobre o passado que rejeitavam era, como toda autoimagem, tão reveladora quanto enganadora:
"Como todas as auto-imagens, a dos académicos e dos artistas do Renascimento era tão reveladora quanto enganadora. Como outros filhos que se rebelam contra a geração dos pais, estes homens deviam mais do que julgavam à 'Idade Média' que tão frequentemente denunciavam. [...] A sua versão do Renascimento era um mito na medida em que apresentava uma descrição enganadora do passado" (BURKE, 1997, p.12).
O "mito do Renascimento", portanto, cumpria uma função identitária poderosa: era o "sonho" de um eterno retorno à glória clássica, que exigia a pintura de um longo período intermediário de "trevas". Ao fazê-lo, os humanistas criaram o mais duradouro dos contrastes ideológicos — luz versus sombra, autonomia versus submissão, progresso versus estagnação.
Nosso esforço aqui foi justamente iluminar essas sombras projetadas, mostrando que a Idade Média, longe de ser um hiato de desprezo pelo humano, foi o período que forjou as categorias de dignidade, interioridade e razão que o próprio Renascimento herdaria e reinterpretaria. A pergunta que dá título a este artigo — "Renascimento: marco da valorização do homem e fim do teocentrismo?" — encontra, assim, uma resposta complexa. Sim, foi um marco decisivo na expressão cultural autônoma do antropocentrismo. Mas não, não foi o início da valorização humana, nem o fim absoluto do teocentrismo. Foi, antes, o momento em que a centelha divina que os medievais viam no homem — a razão, a liberdade, a criatividade — começou a ser entendida como uma chama própria, suficiente para iluminar, por si só, o caminho da modernidade.
Referências Bibliográficas (em Ordem Alfabética)
Para o livro de Peter Burke (obra principal citada):BURKE, Peter. O Renascimento. Tradução de Rita Canas Mendes. São Paulo: Textografia, 1997. p. 12.
Para o livro de John Frame (obra principal citada):FRAME, John M. História da Filosofia e da Teologia Ocidental. São Paulo: Vida Nova, 2023. p. 215, 234-235.
Para a Gravura de Anselmo de Cantuária (imagem 1):THEVET, André. Retrato de Anselmo de Cantuária também conhecido como Anselmo de Aosta (1033-1109), santo, teólogo e doutor da Igreja, arcebispo de Cantuária, gravura de 1584. 1584. 1 gravura digital. Meisterdrucke. Disponível em: https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Andre-Thevet/1108048/Retrato-de-Anselmo-de-Cantu%C3%A1ria-tamb%C3%A9m-conhecido-como-Anselmo-de-Aosta-(1033-1109),-santo,-te%C3%B3logo-e-doutor-da-Igreja,-arcebispo-de-Cantu%C3%A1ria,-gravura-de-1584-de-Andre-Thevet-(1502-1590).html. Acesso em: [Insira a data do seu acesso].
Para a Imagem de São Tomás de Aquino (imagem 2):SANTO TOMÁS DE AQUINO. São Tomás de Aquino. [S.l.], [s.d.]. 1 imagem digital. Disponível em: https://santo.cancaonova.com/santo/sao-tomas-de-aquino/. Acesso em: [Insira a data do seu acesso].
OPENAI. Leonardo da Vinci pintando a Mona Lisa. 2025. 1 imagem digital. ChatGPT (IA generativa). Descrição do prompt: “Imagem que retrata Leonardo da Vinci visto de trás, sentado diante de um cavalete em seu ateliê renascentista, enquanto pinta a Mona Lisa. O pintor segura uma paleta de tintas com a mão esquerda e um pincel com a direita, concentrado nos detalhes do rosto da obra. A Mona Lisa aparece quase concluída, com seu sorriso enigmático e olhar sereno voltado para frente. O ambiente é rústico, com iluminação suave e tons terrosos, reforçando a atmosfera histórica e artística do Renascimento italiano”. Acesso em: [Insira a data, ex.: 16 jan. 2025].
CRUZ, Edmilson. O mínimo sobre Idade Média. Belo Horizonte: O mínimo, 2022. p. 13.

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